A cidade modelo, a cidade do progresso, a cidade do desenvolvimento, a cidade polo da região. Assim vou ouvindo essas propagandas pelas ruas e a avenidas de Castanhal. Eu ouvi tanto que até cansou meus ouvidos. Mas não era por esperar, porque era o dia do aniversário da terra onde nasci.
Na rádio, na televisão local, nos jornais impressos, nas redes sociais e outdoors dominavam homenagem à essa pólis que foi fundada há mais de cem anos por nordestinos. Isso mesmo, por nordestinos. A família do meu pai migrou do Ceará para Igarapé Açú e depois seguiu para Vila de Castanhal onde se fixou. O avô da minha mãe migrou do Rio Grande do Norte para Cabeceira do Rio Apeú. Então, eu sou descendente de nordestino como maior parte dos castanhalenses são.
Isso que falei parece óbvio pra quem é de Castanhal. Mas muito moradores esqueceram de sua própria história e a nova geração de castanhalenses também desconhecem que são descendentes de imigrantes sertanejos.
Você que é de Castanhal que por caso tá lendo este texto pode tá pensado: “Mas a cidade preservou uma das locomotivas à vapor que passava pela vila que se tornou mais tarde esta cidade”. Talvez o trem só lembre que um dia Castanhal teve um trem e uma estação ferroviária. Ou seja, uma memória que se restringe somente ao trem. Mas esqueceram das pessoas, dos homens, das mulheres, das crianças, dos idosos que se deslocavam com uso do trem e que embarcavam e desembarcavam na estação de Castanhal. Quem eram essas pessoas que constantemente viajam das vilas pra Belém e vice-versa?
Uma coisa a história sabe: a maioria eram migrantes que buscavam melhores condições de vida, fugiam da pobreza, da seca, da fome, do latifúndio. Mas essa maioria de sertanejos que vieram reconstruir suas vidas continuaram pobres ou morreram de doenças que atingiram essas vilas agrícolas durante o período de colonização ao longo das margens da estrada de ferro.
Os que sobreviveram deram origem às colônias agrícolas e ficaram submetidos à uma restrita elite. Esta, por sua vez, com a desativação da estrada de ferro e com abertura da rodovia Belém-Brasília; destruiu o primeiro conjunto arquitetônico de Castanhal. O referido grupo dominante, por exemplo, permitiu a demolição da Estação de Trem de Castanhal para construir a avenida principal e, com isso, fortalecer a propaganda que cidade era um município modelo. Essa demolição poderia ter sido evitada e a estação poderia ter se tornado um grande museu.
A cidade de Castanhal sofre de amnésia e, com isso, se faz
necessário construir monumentos que lembrem dos imigrantes nordestinos, que
lembrem dessas pessoas, desses homens e mulheres que trouxeram seus sonhos e construíram
essa cidade. E que não se limitem na propaganda vazia de cidade modelo (Castanhal
é modelo de quê?). Caso contrário, Castanhal não estará preparada para comemorar
cem anos como cidade.
🤩🤩🤩
ResponderExcluirTexto muito instigante! Sou castanhalense e também "filho" de nordestinos que aqui se estabeleceram em busca de uma vida melhor, meu bisavô migrou de Fortaleza para Castanhal, e teve aqui o meu avô por parte de mãe. Eu que me interesso pela memória da cidade, apesar de não ter vivido as principais transformações urbanas que a cidade passa na década de 60, me sinto cada vez mais "alijado" do discurso progressista que a cidade carrega como slogan. O sentimento é que os sujeitos sociais (memorialistas, historiadores por exemplo) que se interessam pelo estudo e preservação da memória da região são cada vez mais "deixados de lado" para dar espaço para o então "progresso" da "cidade modelo".. É de fato uma batalha que foi e continua sendo travada desde o desenvolvimento da antiga vila para município, uma batalha que o progresso sempre está a dois passos na frente da preservação da memória e história da região.
ResponderExcluirÓtimo comentário. Obrigado. Continue acompanhando as Crônicas do Osi.
ExcluirOutro fato mega irônico deste processo de divulgação da cidade como símbolo de um "modelo" de "progresso" e "desenvolvimento" é o atralemento por parte da mídia castanhalense ao passado da cidade como um pontapé incial da escada progressista do município. Alguns jornais da região chegam a atrelar a estrada de ferro de Bragança como um símbolo de desenvolvimento da região que iria sucumbir passivamente as transformações urbanas intensas na década de 70, como se o "progresso" de Castanhal (hoje simbolizado em seu comércio) fosse uma herança dos tempos pretéritos já da EFB, o "desenvolvimento" predator da região que demoliu os objetos históricos da cidade são vistos assim como uma forma de "predestinação" de algo que não poderia seguir outros caminhos. Isso é até assustador, pois nessa perspectiva, o "progresso" comercial da região não destruiu seus símbolos historicos (estação e o mercado municipal por exemplo), mas sim deu continuidade ao seu "dever" para o futuro desenvolvimento urbano para o município.
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