Eu não moro mais na cidade que nasci. Mas estou sempre de passagem por ela e, lógico, faço parada obrigatória pra visitar meus pais, irmãos e amigos. Eu desço do ônibus no terminal rodoviário e sigo andando até chegar ao bairro Nova Olinda, onde morei toda minha infância, adolescência e parte da juventude. Andar até lá me traz lembranças de muitas coisas que vivi, de reencontrar lugares e rostos conhecidos; e também de rostos desconhecidos. Aí neste momento, penso comigo mesmo: “Eu não conheço mais ninguém nesta cidade”.
“Olha, cuidado. Não fica andando por aí não, nessas ruas aí, tá tendo muito assalto, viu!? Tem uns motoqueiros por aí que ficam assaltando as pessoas”, disse pra mim um dos rostos conhecidos depois de um breve cumprimento. Realmente, Castanhal anda mais violenta do que antes. Inúmeros assaltos, inúmeros homicídios. A violência no trânsito também é alta. A cidade modelo, como é conhecida Castanhal, tem longas ruas e avenidas que, por sua vez, é dominada por veículos que se deslocam com grandes velocidades. Mas mesmo assim, sigo andando. Ando sob a luz do sol, pela manhã e pela tarde. Evito andar nas altas horas da noite. Pra escapar dos carros e motos super acelerados, eu tento usar as calçadas que são desconexas entre si.
Os transeuntes que vou encontrando ao longo da minha caminhada carregam aparência de desconfiança, de indiferença. Será que o pessoal da minha cidade sempre foi assim ou se tornou dessa forma, com toda essa apatia?
Os fragmentos das minhas memórias que vou encontrando pelas esquinas, fazem eu esquecer a insegurança e da impassibilidade dos meus conterrâneos. Até que me veio um sorriso que me levou a rir sozinho na rua. Isso aconteceu porque passei por um local onde existia um bar que eu tinha bebido tanto que meus amigos tiveram que me levar pra minha casa.
Querem vê meu coração acelerar!? É quando chego à rua da minha infância. Na verdade, não é uma rua, é uma travessa. Lá, me deparo com uma confusão de lembranças que estão entrelaçadas entre elas. Mas essa travessa não possui a mesma forma de antes. No lugar da rua de aterros, do sossego, das cercas de estacas ou de ripas e dos quintais arborizados; vieram o asfalto esburacado, intensa passagem de veículos barulhentos, muros altos e cercas elétricas.
Tento não enxergar essas mudanças. Procuro colocar apenas as boas memórias na frente: molecada correndo, rindo, brincando e brigando. Cães e seus donos caminhando juntos. Mulheres estendendo roupas lavadas sobre as cercas de estacas, algumas saindo às pressas do mercadinho da esquina trazendo poucos proventos do dia, outras discutindo com seus companheiros na frente de todos e mães carregando seus filhos no colo. Os homens idosos, se não estavam às janelas apreciando o movimento das pessoas, estavam fazendo manutenção de suas cercas. Quanto às mulheres idosas, estavam andando de casa em casa para levarem chá de ervas pra algumas vizinhas enfermas, outras cuidavam seus jardins e aquelas que ficavam simplesmente nas suas casas de janelas abertas esperando alguém visitá-las ou pra fazer alguma reza na espinha ou pra entoar cânticos religiosos.
Toda essa gente pobre, branca, preta e de aparência de indígenas se aquietavam quando caia a noite e aí, nessa travessa que era tomada de mato e muito escura, ficava sob o domínio das Rasgas Mortalhas e dos latidos de cachorros que se irritavam com as mucuras que viam em busca de alimentos nos quintais das casas. Na verdade, a rua da minha infância, era um dos caminhos do bairro que davam acesso pra zona rural da cidade, levava lá pro saudoso Rio Janjão e praquelas comunidades de São Raimundo, Iracema e outras.
E hoje, a rua que cresci é um cenário desolador. Quase não se vê pessoas na travessa, apenas muros altos. Dos poucos vizinhos que encontro, só trazem expressão de tristeza e reclamação do excesso de velocidade e intenso fluxo de carros, dos buracos no asfalto, da falta de esgoto e do calor.
Um
dos vizinhos disse: “Rapaz, nem árvores tem mais na nossa rua e nem nossa cidade.
Só ali na avenida que tem aquelas mangueiras, mas as ruas que levam pros
bairros não têm árvores não. Todo mundo da cidade anda de baixo desse sol. Vê
aí, nesse antigo Camping Ibirapuera aí, ninguém quer conservar, vão desmatar
tudo mesmo. Naquele tempo, esse antigo clube, que tá aí jogado, era só pra rico, né!? Mas deveria virar um parque
pra todo mundo de Castanhal visitar, né? Aí plantava mais árvores. Mas não, esse pessoal que
manda na cidade prefere deixar Castanhal nesse calor medonho. Arre!!”. Não
deixo de concordar com ele.
Enfim,
chego na frente da casa da minha mãe. Subo a calçada e perto a campainha. Mamãe
abre o portão e trazia um grande sorriso: “Meu filho! Que bom que chegou bem.
Tô muito feliz por ter vindo no dia do aniversário da nossa cidade. Entra
logo...olha, tenho uma novidade pra te contar, essa novidade ouvi hoje na rádio.
No programa que sempre gosto de ouvir disseram que a nossa cidade sempre priorizou
o caminho do progresso...”.
Fui lendo e pensando nas mudanças que a minha rua tbm passou. Visitei o passado com as tuas lembranças
ResponderExcluirObrigado pelo comentário.
ExcluirQue Lindooooo Osimar! Parabéns por sua escrita poética e saudosismo!!!
ResponderExcluirMuito obrigado.
ExcluirEu que moro no interior, vejo a transformação cada vez mais acelerada, seja nos modos de vida, nas relações pessoais: tudo se transforma rápido! O que antes era mata, agora vira condomínio e bairro planejado. E a cidade cresce cada vez mais . Como consequência, parece que ficamos cada vez mais isolados mesmo em meio a multidão. Belo texto professor.
ResponderExcluirObrigado pelo comentário. Além de ficarmos mais isolados, a cidade segue perdendo sua memória.
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